Africanidade e moda

     Posted on ter ,22/06/2010 by Dea

Publicado por Maira Moraes e arquivado em ImpressoPerfilSão Paulo Fashion Week – Verão 2011

Alberto Pitta SPFWAs cores de blocos de Carnaval baianos, como Timbalada e Ilê Aiyê, coloriram os corredores do prédio da Bienal, durante a São Paulo Fashion Week, realizada na semana passada na capital paulista. O objetivo do idealizador do evento, Paulo Borges, era criar uma comunicação com o tema da SPFW, Anima – ou alma, em latim.

Uma das paredes do espaço foi reservada ao Cortejo Afro e recebeu ilustrações assinadas pelo artista plástico Alberto Pitta, presidente da entidade. A pintura trazia símbolos africanos retirados da vivência do filho de mãe de santo que, na adolescência, começou a reverenciar os orixás e a difundir a cultura ancestral através de sua arte.

Pitta esteve na semana de moda, onde foi possível presenciar a interação do público com sua obra. Nesta entrevista, concedida durante o evento, esse filho de Ogun de 49 anos fala sobre assuntos como moda, arte, beleza e resgate do passado.

Qual a relação do Cortejo Afro com a moda?
O Cortejo Afro surge do que costumo chamar de fontes perdidas do Carnaval da Bahia, que hoje acaba sendo muito voltado para o show business. O bloco vem dessa necessidade estética de trazer para as ruas instalações artísticas e intervenções estéticas, com a idéia de que o povo possa ter acesso a tudo isso. Acredito que a estética é a melhor maneira de melhorar
a vida das pessoas. E a moda também é isso. Eu vejo a moda como artes plásticas aplicadas. Então eu bebo dessa fonte e levo para o Carnaval.

Como você vê sua obra em um evento como a SPFW?
Quando Paulo (Borges) esteve em Salvador e me fez o convite e Daniela Thomas foi em seguida, comecei a entender esse processo que, de certo modo, é algo que já realizamos na cidade: essa coisa da alma, que vem de dentro, e que eles perceberam porque respiram essa influência baiana. É o São Paulo Fashion Week se dando ao luxo de seu público poder ver o mundo. Não é de fora para dentro, é daqui para lá. É um evento como este percebendo a importância estética para além da moda. Ou seja, é atingir as pessoas. É a ideia de você trabalhar com o simbólico, é a competência de resignificar o que está aqui. Então isso consegue alcançar o povo, mesmo a gente imaginando que a moda e tudo isso que está acontecendo aqui não é para todos. Muito pelo contrário. Eu vi agora o desfile do Ronaldo Fraga. Ali tem alma. Ali tem a mão da gente do povo. Ali está o artesanato e a cultura popular. Então você pega tudo isso e traz à luz.

Você já havia participado de algum desfile de moda?
Eu já fiz coisas na cidade e sei que em Salvador são feitas coisas inspiradas no meu trabalho. Mas para mim, é tudo inaugural. E mais do que isso: é experimental, ou seja, é você fazer sem se preocupar se vai errar ou não.

Você acha que o Sudeste ainda é muito carente de conhecimento da cultura nordestina?
Sim. Talvez pela distância. Mas isso com o tempo está mudando. O SPFW é uma prova disso, então de certo modo se percebe a necessidade de se lançar um olhar sobre o que acontece no Nordeste.

Depois de hoje, como você está vendo a moda e a arte, andando de mãos dadas?
Na verdade, o que imagino é como a moda está vendo o Nordeste depois do que está podendo vivenciar aqui. Eu acho que muda tudo. Esta edição do SPFW, ao meu ver – porque eu sempre acompa- nhei muito pela televisão e pela imprensa – dá a impressão de que será um divisor de águas. Depois deste, Paulo Borges tem um desafio.

Como você vê a relação da moda, arte e Carnaval? 
Pense quando você escolhe uma roupa no armário, veste e leva o dia inteiro na rua. Se você não fizer uma boa escolha, vai passar o resto do dia mal humorado e não sabe por quê. Porque escolheu uma cor inadequada, porque escolheu uma peça inadequada. É a questão estética e do sentimento. Se você escolhe bem a peça, então está tudo certo. No Carnaval também. Se você escolhe um bloco que lhe agrada, com uma fantasia que lhe agrada, seu Carnaval vai ser perfeito. Caso contrário ele não vai ser bom, porque a roupa ou a fantasia com a qual você estava não casou bem com a sua alma, com o seu espírito.

Você já tem o tema do Cortejo Afro para o Carnaval 2011?
O tema do ano que vem é ainda sobre os navios negreiros, sobre o que aconteceu depois deles. Eu estou parafraseando a música de Gilberto Gil e Cazuza, que falam de outras correntezas. Então o São Paulo Fashion Week representa outras correntezas, porque a partir do momento em que Borges e Daniela vão a Salvador e respiram mais ainda a cultura afro, com um olhar especial. Eles absorvem o que nós fazemos naquela cidade e trazem para um evento com a importância do SPFW. Isso tudo aqui é depois dos navios negreiros. Então é por isso que se começa a entender e respeitar símbolos que vieram depois dos navios negreiros.

Você acha que a identidade do Nordeste sintetiza o DNA brasileiro, essa estética, que se busca para nossa moda?
Eu acredito nisso sim, porque até 8 ou 10 anos atrás, eu fiquei mais um menos 1 mês na Polimoda, em Firenze, e nessa época eu não percebi a presença brasileira enquanto moda naquele lugar. Eu não percebia essa referência. Então, quando o Brasil começa a entender que a moda pode vir a partir dele, tudo mudou. Não é de fora para dentro, é daqui para lá, o que significa o Brasil brasileiro, e isso inclui o Nordeste.

Algumas obras suas foram criadas especialmente para o SPFW. Houve algum tipo de influência do evento nelas?
Talvez um pouco da conversa com Paulo Borges e com Daniela Thomas. Porque eles foram buscar na cidade as cores, os cheiros, os sentimentos, aquela ambiência. Isso para mim ficou muito claro nos traços que, muitas vezes, podem parecer um pouco infantis, ingênuos, mas que estão ali como códigos de herança ancestral, de africanidade.

Quanto tempo você leva para a elaboração de cada obra?
Isso é relativo. Posso levar até 2 anos. Posso levar até 10 anos para a ficha cair de algo que aconteceu nos anos 1970 na minha vida, por exemplo, e trazer à luz hoje, mas posso levar também 30 minutos.

Painel SPFW

 

 

 

 

 

 

 

Seus traços e suas cores são muito fortes. De onde vem essa inspiração?
Vem da convivência nos terreiros de candomblé. Assim como acontece nos terreiros, o São Paulo Fashion Week hoje é um lugar de acolhimento. O que eu pude ver no desfile, no Ronaldo Fraga, é um acolhimento a quem está lá no Nordeste, a quem está lá na ponta, às mulheres que fazem o richelieu, que fazem a renascença, a renda inglesa. Aí eles chegam e dizem “olhem, isso aqui pode ser aplicado”.

As filhas das mulheres rendeiras estão vindo para o Sudeste, para São Paulo, para viver uma vida mais moderna, e não querem mais aprender o ofício das mães. Como é que nós, do Norte e do Nordeste podemos fazer para não deixar perder essa cultura, esse trabalho tão lindo e autenticamente brasileiro?
Isso, à primeira vista, é o pecado da globalização. Ela justamente se perde aí, quando não privilegia as pessoas nos lugares onde elas estão, quando elas têm a necessidade de vir pro lado de cá, e abandonar o fuxico, o richelieu e a renda. E qual é a forma de se manter e de se resgatar isso? É comercializar no lugar. Eu imagino que os estilistas que hoje estão no São Paulo Fashion Week apresentando seus trabalhos dentro dessa temática não devem apenas ir ao Nordeste e depois partir. Tem que deixar algo lá. Penso e espero que os grandes estilistas tenham deixado coisas positivas no Nordeste, aprendizado com as mulheres rendeiras e com as filhas delas, se não, não vale a pena.

Por ser um país de cultura plural, você não acha como artista que o Brasil deveria ter uma integração de culturas? Porque assim como o Nordeste tem uma cultura muito rica, o Sul também tem. Essa integração de conhecimentos culturais não fortaleceria mais a nossa identidade? 
Eu acredito nisso, mas num país continental como o Brasil isso só pode ser possível dentro de uma política cultural mais bem resolvida. Isso não anda só.

Fale um pouco da sua trajetória e produção artística.
Eu basicamente faço Carnaval. Sou um carnavalesco assumido. Mas a partir de 94 eu lancei o olhar mais para a moda e para a decoração, a partir de um convite do Caetano Veloso e da Paula Lavigne para fazer a casa deles em Salvador. Aí eu percebi que meu trabalho poderia ir além. Então eu faço tecidos para decoração e cenários. Saí de Salvador e deixei uma equipe fazendo a decoração de rua do São João, do Pelourinho até a Praça Castro Alves. Fui durante 15 anos diretor de arte do Olodum e tinha de pensar suas cores. Na época em que Paul Simon esteve lá, que Michel Jackson esteve lá, eu era responsável pelo look do Olodum, pelos cenários e figurino. Deixei o Olodum para fazer uma coisa mais ousada e para ter a liberdade de trabalhar com artes plásticas e instalações no Carnaval.  É isso o que eu faço o ano inteiro.

O que te levou pro mundo das artes?
Primeiro essa convivência com os terreiros de candomblé, porque além da questão religiosa tem também a questão estética das indumentárias e dos objetos, das ferramentas dos orixás e até mesmo dos próprios animais, do verde da natureza, e dessa compreensão dos orixás nisso tudo. Porque os orixás simboliza basicamente a natureza. Você não pode pensar o mar sem lembrar de Yemanjá, ou as matas sem pensar Oxossi, ou o arco-íris sem relacionar com Oxumaré. Então eu me alimento de tudo isso e penso que isso também é artes plásticas. Isso é Brasil.

Como você acha que essa exposição aqui na bienal vai repercutir no seu trabalho? Você já sentiu alguma mudança ou está esperando que haja alguma mudança?
A primeira mudança está em mim, porque o fato de eu estar num lugar como este, tendo uma exposição como esta,  é lógico que todo artista gostaria. Mas, por outro lado, quem vê também vai se sentir mexido com isso. Então eu acho que para outros olhos isso também está sendo bacana. Ver os símbolos que são utilizados pelo Ilê Aiyê, da Timbalada e dos terreiros de candomblé representa um processo de iniciação. O símbolo da Timbalada, por exemplo, é utilizado por aqueles que estão sendo iniciados, que fizeram sua primeira obrigação para os santos, os Yaôs.

Então você acha que é uma troca, o evento mostra para um público maior a força dessa arte e dessa cultura, e os movimentos afro de Salvador emprestam toda a sua arte, a sua história, pro evento?
É uma troca justíssima, porque todos nós saímos ganhando com isso.
Você acha que o sucesso do Romero Britto, tanto internacional quanto no Brasil, se deva por assumir essa cor e essa brasilidade?É exatamente isso. Ele não tem medo das cores. O trabalho dele é fundamentado nas cores fortes. A ideia de fazer trabalhos como esse é colocar as pessoas para pensar e mesmo quando a pessoa diz “não gostei” ou “não entendi” está valendo, porque isso significa que ela viu, pensou e chegou a uma conclusão. O intuito das obras que estão expostas aí fora é exatamente esse. O sudeste tem que começar a pensar de uma maneira diferente, a não ter medo das cores.

Esporte Clube Ypiranga

     Posted on qui ,22/04/2010 by Dea

*Esta noite é muito especial, especial pelo motivo que os trazem até aqui e aqui estamos  reunidos para celebrar, celebrar  o  retorno de  um  gigante, regido sob o signo de uma tríplice aliança, a cultura, a ética e a estética.

Estamos  falando  de  povo, princípios  e  sentimentos,  estamos  falando do Ypiranga,  o  mais  Querido, o  clube  que  nos  une  a  todos.  Um  clube  que arrebata  corações,  desde  o  mais  simples  dos  homens,  à figuras  ilustres como por exemplo: Jorge Amado, Dorival Caymmi, Irmã Dulce, Capinan e nosso glorioso Mestre Pastinha que por sua paixão aurinegro definiu para a eternidade  as  cores  do  maior  movimento  de  luta e  resistência  cultural da  história  do  Brasil  e  da  Bahia – A  Capoeira  Angola-amarelo e preto sem duvida  de  o  verdadeiro  time  da  gente  do  povo  e  assim segue o Ypiranga nesta simbiose em busca da perfeição.

Nessa retomada histórica, nesse jogo estético de fatos, sensações, côncavo e convexo  de  um  povo  e  suas  mutações e  como retrata muito bem uma das estrofes do seu hino:

“Meu amarelo e preto, meu time do peito meu velho Ypiranga, o povo foi quem te criou, consagrou, time do nosso amor.”

* Texto lido pela jornalista Georgina Maynart durante a apresentação do novo Esporte Clube Ypiranga, em 09/04/2010, no Teatro Irdeb.

Esporte Clube Ypiranga – A Volta do Mais Querido

     Posted on sex ,09/04/2010 by Dea

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carnaval e identidade afro baiana

     Posted on dom ,28/02/2010 by Dea

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Cortejo Afro: uma odisséia em Pirajá

     Posted on ter ,02/02/2010 by Dea

O tráfico  e a conseqüente contribuição dos povos negro-africanos para a formação histórica e cultural do Novo Mundo se deu como uma saga, um épico, uma odisséia, uma viagem dignos das narrativas mitológicas   dado expressão dramática  e a bravura dos atores  escravos e seus algozes.

Inspirado  nesta idéia e na sua representação segundo  artistas e poetas de distintas épocas e lugares o Cortejo Afro construiu seu tema para o carnaval de 2010. O sentido da escolha reflete o compromisso do bloco do bairro de Pirajá em contribuir para o fortalecimento da  nossa memória ancestral.

A contemplação e o espírito crítico acompanharam o processo criativo  do tema: de um lado, concebeu-se uma  fantasia que refletisse  o sentimento da  origem africana através de estamparias cujos motivos lembram traços de identidade rupestre, expressão dos povos antigos na forma de sinais sobre rochas (“rupes” palavra latina para designar rocha). O egiptólogo Byron  Shafer se referiu aos artefatos  representativos do cotidiano   como  uma série inesgotável de imagem do triunfo do bem sobre o mal.

Por outro lado  o tema navegou nos mares da Odisséia grega à Navio Negreiros, de  Castro Alves  – Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vos, Senhor Deus!  Se é loucura…se é verdade!   Tanto horror perante os céus?!   A intensidade das emoções expressas em filmes como Odisséia (o de Kubrick e o de Coppola) e Amistad, de Spielberg.

Em todos a viagem e o deslocamento sugerem um imenso monolítico  simbolizando o medo, a curiosidade e  a cautela diante do desconhecido. A fantástica imagem de Estúpidos e Inúteis, instalação feita por Aston, um artista nascido no Benin, representando o tráfico e o colonialismo europeu na África.

Estes foram suportes para o Cortejo transpor a estética do deslocamento e expressar o sentido de reviravolta na vida provocados pela viagem.      

Ericivaldo Veiga

Professor da UEFS

Assessoria Cultural do Cortejo Afro

Elegance – O Reveillon Tropical do Cortejo Afro

     Posted on qui ,24/12/2009 by Dea

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Solicite seu CONVITE* do Reveillon na sede do Cortejo Afro

Rua Inácio Acciole, 27 – Pelourinho – Salvador Ba

De 28 a 30 de dezembro, das 9:30 as 17:30h

*convites limitados

30 Anos de Blocos Afro

     Posted on dom ,22/11/2009 by Dea

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Aconteceu, entre os dias 12 e 15 de julho de 2006, a II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (II CIAD) em Salvador – Bahia, com tema “A Diáspora e o Renascimento Africano”.                                           

Durante esses dias estudiosos do Brasil, da África e da Diáspora discutiram sobre assuntos de interesses desses países nos encontros, conferências e reuniões que ocorreram por toda a cidade.    

O Memorial de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) – Pelourinho ambientou a exposição “30 anos de Blocos Afro”, organizada por Alberto Pitta, que disponibilizou para visitação seu acervo exclusivo de fantasias de Blocos Afro, Afoxés e Blocos de Índios do carnaval de Salvador, as quais, em sua maioria, receberam estampas especialmente desenvolvidas por este artista plástico. 

As fantasias foram cuidadosamente dispostas para que os visitantes pudessem compreender a história da inclusão da população afro-descendente no carnaval soteropolitano, enquanto folião, iniciada na década de 1960 com a criação dos Blocos de Índios, passando pela criação do 1º Bloco Afro, o Ilê Aiyê, em 1974, até os dias atuais.

     Posted on seg ,19/10/2009 by Dea

A equipe o AFRICAXÉ está empolgadíssima. Estão produzindo como nunca.

O projeto conta com a participação especial de artistas plásticos, design, estilistas, e a contribuição dos arte-educadores do Projeto Axé, que estão auxiliando o aprendizado dos jovens e desenvolvimento da coleção.

Muito em breve, estarão disponíveis camisetas, shorts, vestidos, saias, bermudas, calçados e tecidos com estampas corridas, uma coleção diferente e que com certeza irá encantar pela singularidade.

O corte, as estampas, as cores, os modelos… enfim, tudo está sendo cuidadosamente pensado para oferecer a você um novo conceito, uma nova proposta de moda que poderá ser usada no dia a dia e nas mais variadas ocasiões.

O Manifesto

     Posted on sáb ,17/10/2009 by Dea

Plasticidade e Pertencimento

 De onde vem tudo isso…? Vem daqui mesmo, do nosso lugar, do nosso olhar. Nesse processo “evolutivo”, se é que podemos chamar assim, o Carnaval de Salvador fez questão de dispensar o item plasticidade imaginando que plasticidade vem de plástica no sentido da descartabilidade. Não sabendo nossos alvissareiros mercantilistas do negócio da festa, que a festa é o mais importante e passa necessariamente pelo sentimento de pertencimento da vontade da gente do povo.

Pois bem, talvez tenha que me reportar às festas de largo para chegar a obvia conclusão de que ela já não existe se não pela insistência insana e consciente da nossa gente. Não irei nem ousar lembrar as barracas: de Juvená, da Índia, Vitória, dentre outras.

Arrumar a casa para receberas pessoas, decorar a avenida, para receber o folião, isso é plasticidade que vai de encontro a argumentos sem nexo de governantes que acabaram com a decoração do carnaval em nome de uma economia ignorante que estancaram em plena linha de montagem a produção dos banquinhos coloridos e mesinhas de madeira que davam vazão à criatividade e ao censo estético dos artistas anônimos e populares desta cidade.

A violência vem daí, da censura ao direito da apreciação, ao deleite e a fruição. Agora que se pode fazer, não se faz, agora que poderia ser melhor, não é, então, o que faremos? Continuaremos a universalizar os desejos e a vontade do povo, continuaremos a lhes oferecer pacotes prontos e vazios envolvidos em cordas de nylon recheados em alegrias quase suspeitas e quase compradas.

O artista tem como função, a meu ver, disparar a fúria, a intolerância, a passividade, a indiferença, através dos signos e símbolos, entre outros, essa é a minha função, aqui esta tarde, com este manifesto que é “Qualquer coisas que se sinta em tanto sentimento deve ter alguém que sirva”.

Carnaval e Tradição

     Posted on ter ,13/10/2009 by Dea

A recuperação das cores no outro

Através de um esboço imaginário de uma África livre, uma África desenhada nas pranchetas, construídas a partir de um ideal de igualdade e justiça nos quintais e lugares mais misteriosos da Bahia, na revolta dos Malês, dos Búzios, nos quilombos existentes, nas investigações e experimentações estéticas, foi nesse jogo de ideais de liberdade e brincadeiras dissimuladas entre mocinhos e bandidos que surge no final dos anos 60 um bloco de índios chamado Apaches do Tororó.    

O Bloco Apaches surge inspirado em filmes e seriados americanos, do conflito entre índios e brancos, mas na verdade tinha como pano de fundo a inclusão do negro no Carnaval de Salvador, que até então, só participava empurrando os carros alegóricos dos clubes carnavalescos pertencentes à classe média.  

O “empoderamento” conquistado pelos Apaches não se encerrava nas manifestações carnavalescas, pelo contrário, espraiava-se nos bairros populares dando lugar a homéricas discussões, estimulando o surgimento de agremiações semelhantes, tais como Commanches, Cheyenes, Siuox, Pele Vermelha (devemos observar a predileção por nomes de tribos indígenas americanas e não brasileiras para esses primeiros blocos de índio), Tupis, Guaranis, Xavantes, Pena Branca, Caciques, sendo este o primeiro bloco de índios que surge no carnaval da Bahia oriundo do bairro do Garcia. 

Os blocos de índios tiveram papel fundamental ao parar nas “tecelagens da opressão e do preconceito” as máquinas de uma sociedade que vive a tecer um tecido de má qualidade, pois a história que queríamos escrever naquele momento era outra e essa historiografia, que se expressava através das artes africanas (e olha que estamos falando de índios…) era forjada das mais diversas maneiras pelos artistas populares desta terra, pelas heranças e pelo imaginário de que afirmava no início, ou seja, uma África livre, um esboço de nação a partir do carnaval.

No ano de 1977, um episódio envolvendo o bloco “Lá Vem Elas”, composto por mulheres de classe media e o Apaches do Tororó resultou num dos momentos mais delicados da história do carnaval baiano. Acusados de ter invadido o bloco para beijar as mulheres, os Apaches foram perseguidos e presos pela polícia e fortemente atacados pela sociedade que exigia providencias de preferência que o bloco não desfilasse mais no carnaval.

Se eles foram seduzidos por elas ou não na verdade isso não importa o fato é que segundo Adelmo Costa, presidente dos Apaches, “um cão danado, todos a ele”, explicando que tudo que acontecia no carnaval de Salvador era atribuído ao Apaches, neste ano, o carnaval acabou mais cedo.

Faltaram algemas para prender os índios, na verdade todos que estavam fantasiados de índios possivelmente foram presos pela polícia.

Mas o que vale mesmo é o poder da inventividade. Os apaches que fora “caçado” no Carnaval de 1977 e ficou ameaçado de não participar do Carnaval de 1978, ano em que completaria 10 anos de fundação, mostrou a capacidade da reinvenção e da ressignificação iluminado, aquele que era o maior bloco negro da história do Carnaval da Bahia saiu com o tema Índio Batedor Americano, o índio de falava a língua do homem branco e se adaptou ao convívio com os mesmos.

A música era de refrão fácil:

“AQUI VOU NESTES 10 DEZ ANOS, TODOS DE ÍNDIO DE BATEDOR AMERICANO”.

Um refrão fácil é verdade, mais de suntuosa entoação que ilustrava muitíssimo bem o estado de espírito daqueles foliões que sabiam mais que qualquer outro o significado das fantasias que trajavam e, sobretudo, souberam suportar a transposição das cores, pois o Apaches adotara o azul para driblar o olho viciado das milícias e da sociedade de plantão.

Trago a luz o exemplo deste episódio para ressaltar a importância de recuperar as cores perdidas do Carnaval.

Nesse vácuo empolgativo, surgem os blocos Afro capitaneados pelo Ilê Aiyê e revisitado pelo novo e desafiante paradigma da tradição dos Afoxés, com o surgimento do Afoxé Badauê no finalzinho da década de 1970.

As manifestações culturais a partir de uma estética valorizada da gente do povo, com saborosos temperos de africanidades foram reinventadas, revisitadas, enfim ressignificadas por nós.

E para que? Para nos proteger nos dá forças, dignidade e auto – estima, para nos possibilitar que no carnaval possamos escrever nos panos, a cada ano, a nossa história, para dar sentido a palavra transversalidade, que alcunhada pela classe média, encontra em nós o seu verdadeiro sentido de humanidade, devoção e valor.

Os desenhos, grafismos e releituras das simbologias milenares de África (como diz J. Cunha) tem sido o que realmente nos faz respirar neste lado lindo e ao mesmo tempo miserável das Américas a quem o colonizador “fez questão” de nos apresentar, aguçando todos os nossos sentidos.

E por falar em sentidos, sentido não teria o Carnaval se não o de propiciar a nossa gente a oportunidade para o deleite e a fruição onde a idéia de pensamento sobrepuje ao entendimento na conjugação Ver X Não Entender X Pensar. Pois bem, é isso que nos interessa a todos como noção de cidadania que concerne aos princípios, ao pertencimento e ao direito.